Saudosismo, essa grande corrente tão bem ensaiada por Teixeira de Pascoaes, esse sentimento tão puro de sentir português que D.Duarte inaugurou em seus escritos literários; é este o sentimento que nos acompaha, envolve e nos essencializa desde sempre. É com o Rei filósofo que a palavra saudade vê surgir pela primeira vez o seu marco literário na História. E depois, nunca mais nos abandonou este mais que de todos nosso, sentimento ecuménico e ainda assim inspirando somente essa maresia atlântica que banha Portugal.
No entanto, um sentimento nasce sempre do ser-se humano, muito antes de se estender e corporalizar em palavras. E foi assim, que no início do século XV, com os Descobrimentos portugueses, a saudade se começa a incorporar. Os homens de mar, atirados ao mundo pelo bem fazer da pátria, esquecidos num aglomerado de madeiras, águas turbulentas com gigantes, monstros marinhos e um horizonte finito num abismo colossal, sentiram algures no fundo da alma, o surgir de uma pontada triste e ao mesmo tempo alegre, por todos aqueles que ficaram em terra, até mesmo por ela, a sua terra. Saudade, foi só o tempo de ganhar nome como coisa existente, como ser.
Ora, devemos nós negar ou esquecer a nossa história? A nossa história, não consigo eu vê-la de alma ao de leve, não consigo parti-la em partes, fragmentá-la em pequenos sendos sem o serem. Daí a meu ver, que a nossa história não pode nunca ser separada em histórias. É somente uma história, espaço-temporal e individual. Por exemplo, um eu português tem a sua história como marcos espaço-temporais e como pedaços de acontecimentos, modos de ser que nos edificaram. E há nisto uma confusão? Será necessário mais um neologismo sem fundamento ou proveito?
Isto, porque após nove séculos de existência decidiram (afinal quem decide o quê, a mim ninguém me perguntou nada) dividir a história. Dizem que afinal não há somente uma história, mas duas. Enfim, lembro-me de aprender isso ainda muito criança e nunca me causou qualquer confusão, nem nunca o pensei assim. Aliás, qualquer criança consegue distinguir uma história de um livro, da história da humanidade, dos factos históricos, temporais, espaciais ou seja lá o que for. Parece no entanto ter surgido uma preocupação absurda com este facto.Talvez por tanta gente andar confusa. Talvez para poupar a memória às pessoas. Não há tempo, não há tempo e como já mais faltou para não haver história há que facilitar as coisas aos portugueses! Até está na moda o modernizar tudo, o contaminar tudo com tudo, como um grande pote de cores definidas que misturadas não dão cor nenhuma, ou talvez somente uma cor. E depois, sei lá, talvez um dia destes sejamos todos americanos, talvez um dia destes acabemos todos como eles sem história, ou com estória. Ups, escrevi a maldita palavra, mas como adjectivo de coisa rasca, não sei se repararam, por agora parece-me que somente serve para isso.
Ai grandes nobres da literatura, do jornalismo e esses outros senhores( será que são de corpo e alma como nós, as outras pessoas?) deixem lá a nossa querida história em paz, senão um dia destes ainda acabamos por ver nos nossos queridos média da TVI, naquele programa muito cultural "morangada no esfreganço do açúcar" a frase: estória de uma geração rebelde. E isto não ia cair nada bem, pois não?
Saudades tenho-as muitas, por muita gente, por ti Mia, pelo passado e obviamente pelo futuro, ou não fosse a minha saudade a mui nobre saudade portuguesa! Ode a esse saudosismo; que ele seja eterno enquanto a nossa pátria o for! E não me venham com complexos patriotas, porque não há como amar o que somos, sem isso deixamos simplesmente de o ser.