sábado, novembro 04, 2006

Eternamente saudosista: o não ter medo daquilo que somos!

Saudosismo, essa grande corrente tão bem ensaiada por Teixeira de Pascoaes, esse sentimento tão puro de sentir português que D.Duarte inaugurou em seus escritos literários; é este o sentimento que nos acompaha, envolve e nos essencializa desde sempre. É com o Rei filósofo que a palavra saudade vê surgir pela primeira vez o seu marco literário na História. E depois, nunca mais nos abandonou este mais que de todos nosso, sentimento ecuménico e ainda assim inspirando somente essa maresia atlântica que banha Portugal.
No entanto, um sentimento nasce sempre do ser-se humano, muito antes de se estender e corporalizar em palavras. E foi assim, que no início do século XV, com os Descobrimentos portugueses, a saudade se começa a incorporar. Os homens de mar, atirados ao mundo pelo bem fazer da pátria, esquecidos num aglomerado de madeiras, águas turbulentas com gigantes, monstros marinhos e um horizonte finito num abismo colossal, sentiram algures no fundo da alma, o surgir de uma pontada triste e ao mesmo tempo alegre, por todos aqueles que ficaram em terra, até mesmo por ela, a sua terra. Saudade, foi só o tempo de ganhar nome como coisa existente, como ser.
Ora, devemos nós negar ou esquecer a nossa história? A nossa história, não consigo eu vê-la de alma ao de leve, não consigo parti-la em partes, fragmentá-la em pequenos sendos sem o serem. Daí a meu ver, que a nossa história não pode nunca ser separada em histórias. É somente uma história, espaço-temporal e individual. Por exemplo, um eu português tem a sua história como marcos espaço-temporais e como pedaços de acontecimentos, modos de ser que nos edificaram. E há nisto uma confusão? Será necessário mais um neologismo sem fundamento ou proveito?
Isto, porque após nove séculos de existência decidiram (afinal quem decide o quê, a mim ninguém me perguntou nada) dividir a história. Dizem que afinal não há somente uma história, mas duas. Enfim, lembro-me de aprender isso ainda muito criança e nunca me causou qualquer confusão, nem nunca o pensei assim. Aliás, qualquer criança consegue distinguir uma história de um livro, da história da humanidade, dos factos históricos, temporais, espaciais ou seja lá o que for. Parece no entanto ter surgido uma preocupação absurda com este facto.Talvez por tanta gente andar confusa. Talvez para poupar a memória às pessoas. Não há tempo, não há tempo e como já mais faltou para não haver história há que facilitar as coisas aos portugueses! Até está na moda o modernizar tudo, o contaminar tudo com tudo, como um grande pote de cores definidas que misturadas não dão cor nenhuma, ou talvez somente uma cor. E depois, sei lá, talvez um dia destes sejamos todos americanos, talvez um dia destes acabemos todos como eles sem história, ou com estória. Ups, escrevi a maldita palavra, mas como adjectivo de coisa rasca, não sei se repararam, por agora parece-me que somente serve para isso.
Ai grandes nobres da literatura, do jornalismo e esses outros senhores( será que são de corpo e alma como nós, as outras pessoas?) deixem lá a nossa querida história em paz, senão um dia destes ainda acabamos por ver nos nossos queridos média da TVI, naquele programa muito cultural "morangada no esfreganço do açúcar" a frase: estória de uma geração rebelde. E isto não ia cair nada bem, pois não?
Saudades tenho-as muitas, por muita gente, por ti Mia, pelo passado e obviamente pelo futuro, ou não fosse a minha saudade a mui nobre saudade portuguesa! Ode a esse saudosismo; que ele seja eterno enquanto a nossa pátria o for! E não me venham com complexos patriotas, porque não há como amar o que somos, sem isso deixamos simplesmente de o ser.

1 Comments:

Blogger incógnito blasfemo said...

Viva a História!!!

Sou português e hei de ser até morrer, não há sinais, há viver e fazer surgir o espírito lusitano.

A História são factos escolhidos, façamos os factos.

Creio que Fernando Pessoa e António Sérgio não tinham vergonha de ser portugueses e eles próprios abandonaram o saudosismo enquanto movimento vivo por o acharem bloqueador do porvir potente.

Viva a luso-ascendência, viva a descendência lusa. Viva todas as Nações, viva a Humanidade no seu todo.

Fora a homogeneização, fora o contentamento.
Fora o domínio imperialista, fora as aculturações.

Estória nunca será História, mesmo que a Ordem Mundial o queira por momentos, é pecado equipará-las, ou mesmo tentar hierarquizá-las (será que a estória da carochinha faz da carochinha personagem histórica?)

Isto que fazemos, Métis, isto sim é o espírito vivo português.

A existência como fundamento!

5.11.06  

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