sexta-feira, junho 30, 2006

4

às vezes...quando acordava
era porque tínhamos chegado

ficava a bordo encostado às amuradas
horas a fio
espiava a cidade as colinas inclinando-se
para a noite lodosa do rio
e o balouçar do barco enchia-me de melancolia

a noite trazia-me aragens com cheiros a corpos suados
cantares e danças em redor de fogos que eu não sabia
o ruído dos becos a luz fosca de um bar
se descesse a terra encontrar-te-ia...tinha a certeza
para o voo frenético do sexo
e num suspiro talvez alargássemos os umbrais da noite
mas ficava preso ao navio...hipnotizado
com o coração em desordem
os dedos explorando nervosos as ranhuras da madeira
os pregos ferrugentos as cordas

as luzes do cais revelavam-me corpos fugidios
penumbras donde se escapavam ditos obscenos
gemidos agudos sibilantes risos que despertavam em mim
a vontade sempre urgente de partir

Al Berto, Salsugem (1982)

quinta-feira, junho 29, 2006

Se quiseres cavalgar...

... não montes o cavalo branco.

segunda-feira, junho 26, 2006

TECA


«A música é o exercício aritmético oculto da alma que não sabe que calcula».

.

Aconchegou o casaco e apressou-se. A saia prendia-lhe os movimentos e os sapatos pegavam-se ao chão.
A cidade é cada vez mais rápida. As luzes misturam o fumo com a chuva miudinha, as buzinas com as risadinhas histéricas.
As pessoas amontoam-se nos cafés onde as palavras se cruzam no ar abafado. Leu na porta da casa-de-banho: Quando foste, eu já não era.
Sentou-se encostada ao espelho que reflectia a azáfama de uma manhã de correria no café da esquina.
Sentia-se lenta, funcionava em paralelo ao barulho das colheres que batiam nas chávenas. O líquido escuro sorvido em instantes parecia consolar os transeuntes doidos que chegavam molhados da chuva, mas já de nada lhe servia.
Abriu a revista: Luz assim a sombra estranha ao olhar. Incapaz de situar a cortina que separa o fantástico da realidade, vejo-te neste plano de indefinição certa onde o ser é só imaginação e intrigo-me porque foges sempre ao fim da tarde.
Doce e viscoso é o pegajoso cobertor das vergonhas. As formigas marcham a um ritmo melífluo por este campo escondido. Lambitam o caminho desvairadas, para quê o para onde? E deixam-se escorrer, caem num pote gigante sem tampa que se vai enchendo de pontos pretos. Este unguento não possui quaisquer propriedades medicinais. Aplicado ou ingerido dobra os sintomas do padecimento e leva o doente à loucura.
Uma voz interrompeu-a.
- Bom dia, o que vai tomar?
- Mais um café, por favor.

quarta-feira, junho 07, 2006

Não é preciso responder...

SUDOKU: What the fuck is this?!?!

Tá bem que quem passa a vida de cuzinho sentadinho no cafezinho tem de arranjar forma de se entreter, mas não bastava já o entupimento em fumo e tostas mistas?

Não haverá outra forma daquelas peidas gordas levantarem o ego?

Bastar-nos-à os cubinhos de números para subir as estatísticas dos brilhantes resultados a matemática? Quem é que estamos a enganar?

Eu faria um apelo ao intelecto...mas e se me cortam o pescoço? Fico sem o meu, ora aqui está um dilema.

terça-feira, junho 06, 2006

Ondas de solidão















Na corda fixa no vazio os pés aquecem um a um

Nua e crua

Calor paixão
Tensão sexo ilusão

Ausência presente
Cheiro dormente

Nostalgia memória
Poesia ou imaginação?

Heras!

Dor prazer devasso

Enjoo

Uma sobriedade escassa seguiu-se a poucas horas de sono.
Deixava-se levar pelo baloiçar incessante do comboio que o transportava louco, olhava em frente e o corpo pesava. A paisagem lambida ficava para trás, as conversas do lado baralham-se com o correr do vagão. Encostou a cabeça e fechou os olhos, estranhos dormem cúmplices lado a lado. Nisto a carruagem dispara, o estômago aperta, a náusea na garganta e a raiva na cabeça que não quer sair, sufoca num pesadelo febril.
A viagem continua e segue numa alucinação. Agonia cerebral. Salivação constante. Nó no estômago. Tormento por dentro e de repente, a calma.
A carruagem desliza no mar cinzento.
Uma cara conhecida.

segunda-feira, junho 05, 2006

Meus caros!


É verdade. Mais um «blog» neste vasto mundo cibernético que tanta falta nos parece fazer. E enfim, ele existe não por uma vontade de partilhar, (verbo que não falta muito para desaparecer do dicionário) existe simplesmente por existir, uma vez que foi criado, como tantos por aí.